segunda-feira, 7 de maio de 2018

Adeus Rinoceronte Branco...

(Texto de Darc Freitas de Andrade)

Chamamos de Meio Ambiente porque já destruímos a metade? 

Em março deste ano (2018), o mundo perdeu o rinoceronte branco, que em seus últimos anos de vida tinha a companhia de três guarda-costas armados com escopetas e rifles semi automáticos durante 24 horas por dia, sete dias por semana. 
Ele vivia no Ol Pejeta Conservancy, área de proteção no Quênia. 
Os seguranças tinham como missão afastar os caçadores que saíam em busca do chifre de rinocerontes, vendido em países como o Vietnã por até US$ 100 mil o quilo (mais valioso que ouro), por ter fama de curar doenças como o câncer. 


(Sudan, o último Rinoceronte Branco, falecido aos 45 anos, no Quênia, continuam vivas as fêmeas Najin e Fatu, respectivamente filha e neta de Sudan. A única esperança para preservar esta espécie é desenvolver técnicas de fertilização in vitro com o uso de ovos das duas fêmeas restantes e de espermatozoides conservados de machos)
(imagem, Sputinik Brasil)         


Ao longo dos anos, espécies raras vão desaparecendo do planeta por conta da ação menos cuidada do homem. Se alguns animais se extinguem por diferentes motivos, a verdade é que muitos outros desaparecem da superfície da Terra devido à caça praticada pelos humanos.

Alterações de clima, desastres naturais, doenças desconhecidas ou, também muito frequente, ataques de predadores, são algumas das ameaças naturais que os animais sofrem e que podem levar à extinção. Mas nenhuma das ameaças exteriores está provada como mais destrutiva que a ação humana, nomeadamente a caça. 

Dentre outros, já  estavam extintos, o Rinoceronte Negro do Oeste Africano (Diceros bicornis) nativo do continente africano, que foi extinto recentemente (2011) por causa da caça predatória;
Também o Leão do Cabo (Panthera leo melanochaita) espécie nativa da África do Sul, que foi extinto por volta de 1865 decorrente da caça esportiva e para proteger as propriedades e os rebanhos;
E ainda o Quagga (Equus quagga quagga) espécie de zebra, que habitava a África do Sul, e que foi extinto no século XIX decorrente da caça por sua pele e couro. O último da espécie morreu no zoológico de Amsterdam, em 1883.
Isso sem falar em uma lista extensa de outros tantos animais que desapareceram da face da Terra, entre tigres, golfinhos, lobos, focas, cabras, pássaros, etc...

E nós? Quando iremos 

Sobre o Autor: Darc Freitas de Andrade é Catador de Materiais Recicláveis, na cidade de  São Gonçalo.


quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Domingo no Parque - Tivoli Park


terça-feira, 9 de janeiro de 2018


Domingo no Parque – Tivoli Park


Toda criança é apaixonada por um parque de diversão. Eu não fui diferente, até um período da minha infância.

Foi num domingo do ano de 1985, eu com 13 aninhos. Embora fosse uma criança desde pequeno sempre tive um biotipo avantajado para os padrões de um menino da minha idade. Bom, vamos ser sincero, gordinho. Tá bom, vamos ser mais sincero ainda, GORDO. Assim como eu era apelidado entre meus amigos de infância, e era esse apelido que muitas vezes deixava minha avó fula da vida quando um desses amiguinhos me gritava na porta de casa para sair para brincar:  -GORDO !

- ELE É GORDO PORQUE ALMOÇA E JANTA ! Gritava dona Olívia da cozinha, com a colher de pau na mão onde na maioria das vezes estava  preparando o rango para o jantar.

Para piorar, a genética também não ajuda. Como um legitimo descendente de alemão sempre fui grandão. Só para constar, no jardim de infância, sabe  aquela fila indiana que nos colocam um atrás do outro com mãozinha no ombro sempre do menor para o maior? Eu era sempre o ultimo da fila. Mas você deve estar se perguntando o porquê dessa minha narrativa que é um bulling de mim mesmo. Bom, vocês entenderão no decorrer do texto.

Vamos voltar naquele domingo de 1985 onde amarradão assistia  o programa Domingo no Parque do Silvio Santos. Era aquele programa que trancavam a criança em uma cabine em formato de foguete, colocavam um fone de ouvido na pobrezinha e ela tinha que dizer sim ou não quando acendia a luz vermelha. Enquanto isso o Silvio fazia troca-troca dos prêmios. E era cada uma. “Você quer trocar um carro zero quilômetro por uma caixinha de fósforo?”. Eu naquela adrenalina do programa, fui interrompido pela minha mãe me perguntando seu gostaria ir ao Tivoli Park.  “-SIM!”, soltando um grito como se tivesse no programa do Silvio. Talquinho no sovaco e gel no cabelo fui eu com minha família à sensação dos anos 80.

Silvio coloca sua filha Daniela para participar do programa

O parque foi criado pelo já famoso empresário circense, Orlando Orfei em 1972 que não economizou para trazer  brinquedos de ultima geração para o terreno cedido pelo então governador do Estado da Guanabara, Chagas Freitas. Esse terreno ficava as margens da Lagoa Rodrigo de Freitas onde hoje se encontra o Parque dos Patins. O nome foi inspirado no segundo parque mais antigo do mundo, Parque Tivoli, em Copenhage, capital da Dinamarca. Inaugurado em 1843 por concessão do Rei da Dinamarca Cristiano VIII para Georg Carstensen que convenceu o monarca usando uma bela justificativa. “Quando as pessoas estão se divertindo, elas não estão pensando em política”.

Tivoli Park na Dinamarca

Mas voltando ao domingão, logo que minha mãe estacionou o chevetinho SL 80 vermelho abri a porta e corri para fila da bilheteria que estava gigantesca. Meu pai com meu irmão no colo só soltou um “calma garoto”.   

Assim que passamos o portão de entrada vi que não era só a fila da bilheteria da entrada que era gigantesca, mas cada brinquedo tinha uma fila  que dava volta no quarteirão. Com certeza quem estava disposto a ter minutos de diversão tinha que penar por horas na fila.

Logo que entrei no parque o brinquedo que me chamou a atenção não foi a famosa Montanha Russa Espacial, aquela que dava um duplo salto mortal em piruetas. Me  enjoa só de imaginar. Foi logo ali na entrada mesmo, que meus olhos brilharam quando avistaram um brinquedo com varias lanchas de cores diferentes que boiavam e giravam em circulo  como um carrossel dentro de uma piscina circular.   

Comercial do Tivoli com ênfase na Montanha Russa Espacial (1983)

Então eu e minha mãe nos posicionamos na fila e cada passo me imaginava pilotando minha lancha sobre as ondas do oceano.

Foram mais ou menos 30 minutos na fila de espera até que chegou a hora. Cada lancha comportava duas crianças, então teria companhia na minha aventura.  A lancha comportava duas crianças, mas não uma “criançona”. Assim que me viu o operador do brinquedo fez um gesto com a mão negando a minha entrada e falou:

- Não posso colocar você na lancha, pois você é muito grande.

Minha mãe comprou logo a briga. Sabe como é mãe, está sempre aposta para defender seu filho.

 - Como assim! Meu filho vai sim entrar nessa @$#@$@ (ela adorava um palavrão )

-Não pode senhora, olha o tamanho do seu filho.

- Claro que pode, meu filho tem treze anos e a placa do brinquedo limita a idade para quinze anos. Esbraveja ela enquanto anda e gesticula em direção à placa de instrução do brinquedo.

Essa discussão já durava mais de 20 minutos com o brinquedo parado. Olho ao redor e o que vejo é aquela plateia e alguns até dando pitaco: “- Deixa o gordinho brincar.” Eu queria abrir um buraco na terra como avestruz e colocar minha cabeça dentro.

-Mãe, deixa pra lá. Não quero mais ir no brinquedo.

- Haaaaaá, você vai sim! Agora a briga é comigo. Quero falar com o diretor do parque.

Então um segurança que só acompanhava o bate papo caloroso pediu que o acompanhássemos, pois nos levaria ao diretor.

Ao entrarmos em uma ampla sala com três mesas em cada canto, uma das mesas se destacava e lá um senhor sexagenário com um pequeno topete dourado que não escondia os fios de cabelos brancos e uma costeleta que se destacava nos atendeu. Com um sotaque italiano e uma voz calma o senhor  abriu o dialogo com a minha mãe.

- Boa tarde, me chamo Orlando Orfei e sou o responsável pelo parque. Em que posso ajudar?

Naquela época não sabia, mas estávamos diante de um mito. Orlando Orfei nasceu em 8 de julho de 1920 na Itália, Foi um dos maiores empresários circenses e adotou definitivamente o Brasil como moradia no fim da década de 60 quando veio participar do Festival Mundial do Circo no Maracanãzinho.  Alem de empresário, foi pintor, escritor, dublê e ator de cinema, mas sem dúvida o que ele mais gostou foi ser domador de leões. Orfei recebeu várias condecorações e foi recebido por 4 Papas. Faleceu aos 94 anos no primeiro dia do mês de agosto de 2015 no município de Duque de Caxias onde morava.

Orlando Orfei (08/07/1920 - 01/08/2015)

- Olha só senhor Orfeu...

- É Orfei senhora.  Cortou ele antes que a minha mãe prosseguisse. E ali, fiquei sabendo que nem ela tinha ideia de quem era aquele homem.

- Olha aqui senhor Orfei, a gente enfrente uma fila do @$@#@$ (acho que já falei que minha mãe adorava um palavrão) e quando chega na hora do meu menino brincar ele é barrado pelo seu funcionário! Isso é uma sacanagem. Balbucia minha mãe vermelha de raiva.

- Calma senhora, vamos resolver o seu problema. Sente-se por favor. Quer um cafezinho? Foi passado agora mesmo. Está ótimo. E com toda tranquilidade do mundo, Orfei começava a utilizar sua técnica de domador, pois diante dele a minha mãe era mesmo uma leoa protegendo a sua prole.  

E continuou...

- Que garotão bonito que a senhora tem. Quantos anos você tem garoto?

- 13. Respondi sem muitas palavras.

- A senhora já deve ter uma lista grande de pretendentes a nora.

Orfei já ganhava a simpatia de minha mãe. Qual é a mãe que não gosta de ter seu filho elogiado. Afinal, toda mãe é coruja. Por mais feio que ele seja, pra ela é sempre um Kauã Reymond.

- Ele é lindo mesmo. Disse ela com o rosto ainda vermelho, mas não mais de raiva.

- Olha só, vamos fazer o seguinte. Seu filho vai poder sim andar no brinquedo, porem vamos coloca-lo sozinho sem a companhia de outra criança e no meio para equilibrar o peso. Assim não terá perigo de seu filho se molhar. Falou Orfei com o sorriso no rosto.     
- Tá bom. Foram as únicas palavras que minha mãe pronunciou.

-Vou pedir para o Sérgio, o nosso segurança que trouxe vocês, acompanha-los até o brinquedo e passar para o operador como proceder.

E assim foi feito, após nos despedir do dono do parque fomos levados até o brinquedo e assim que o segurança passou as ordens vinda do QG do parque pelo próprio general, minha mãe não conseguiu conter aquela cara de ganhei a guerra. Mas, enquanto minha mãe comemorava eu cumpria apenas a obrigação de sentar e ali ficar rodando sem mais emoções. Torcendo para que fosse o mais breve possível. Não existia mais  aquela fantasia de navegar pelo oceano. Era só eu parado e sentado no meio daquela lanchinha verde que rodava, rodava, e rodava.

- Acena pra mamãe. Insistia ela.

Ainda bem que naquela época não existia telefone celular com câmera e muito menos Facebook, pois tenho certeza que meu mico se eternizaria. Hoje escrevendo esse texto lembro-me daquele momento como a recomendação do capitão dos Pinguins no filme de Madagascar. Apenas sorria e acene. Mas sorrir era demais então apenas acenei.


Assim como no programa Domingo no Parque do Silvio Santos, tudo na nossa vida é questão de escolha. É um SIM ou um NÃO. Mesmo que não consigamos enxergar qual o prêmio que a vida nos reserva. Então, se pudesse voltar no tempo enquanto fantasiava-me na cabine do foguete do programa do Silvio eu teria gritado “–NÃO!” quando a luz vermelha acendeu através do convite de minha mãe. 


Alex Wölbert é o Blogueiro de "Histórias contadas por aí", colaborador do Blog do Vovozinho,  Blog  Tafulhar, da página Sim São gonçalo e, também, cronista do Jornal DAKI. Considerado um dos maiores cronistas do Leste Fluminense, sobretudo acerca da cidade de São Gonçalo-RJ. Faz parte do Projeto Recicla Leitores. Facebook: Alex Wölbert 

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Samaritano, o Lar




                                           (Texto de  Jorge Cesar Pereira Nunes)

                    Nascido em Arrozal, Piraí, RJ, em três de agosto de 1877, Aníbal José dos Santos Nora (filho de Bazílio José dos Santos Nora e Maria Rita dos Santos Nora) formou-se cedo como reverendo pela Igreja Presbiteriana do Rio de Janeiro, quando ela era ainda incipiente no Brasil. No afã de estendê-la, aceitou a missão de implantá-la em Alto Jequitibá, MG, onde chegou em nove de setembro de 1908. Em 45 dias, percorreu toda a região que caberia à sua administração e, noivo, retornou à cidade do Rio de Janeiro para casar-se, em 21 de novembro, com Constância [Lemos] Nora (filha de Francisco Paulo Pereira Lemos e Joana Assinore Lemos). A lua de mel foi rápida e já no dia três de dezembro chegava de novo a Alto Jequitibá. Em oito de novembro de 1911, inaugurou o novo templo e ensinou aos fiéis que a grande festa anual haveria de ser sempre sete de setembro, por ser não só a de independência do Brasil como a de liberdade religiosa no Brasil.
                    Porém, ele e a esposa viram que era preciso fazer mais do que somente a difusão do Evangelho: como não havia escolas primárias em número suficiente para atender a todas as crianças locais, criaram uma, em 1917, recebendo 70 alunos no andar superior da casa paroquial. Foi o embrião do que viria a ser o Ginásio Evangélico, sob a divisa “O temor de Deus é o princípio da sabedoria”, e é o atual Colégio Evangélico, que ainda existe naquela cidade mineira.

(imagem, tafulhar.com.br)

                    Suas atividades eram tantas e tão produtivas, que ele foi encarregado de várias missões em diversos pontos do território nacional, de 1927 a 1940, até que, neste último ano, foi encarregado de implantar a Igreja Presbiteriana em São Gonçalo. Era 14 de julho quando ele começou suas pregações em uma casa alugada no bairro Barro Vermelho. Espaço insuficiente para abrigar o crescente número de fiéis, começou a procurar uma área maior e em ponto mais central do município. Motivou-o o fato de haver sido procurado por uma família que precisava de um barraco para residir. Via que, aqui, o problema maior não era a falta de escolas, mas a inexistência de abrigo para pessoas carentes. Afinal, somente uma instituição social, o Asilo Amor ao Próximo, estava em funcionamento e apenas uma segunda, o Abrigo do Cristo Redentor, estava em vias de inaugurar-se, mas ambas ainda eram insuficientes para atender a demanda.


(imagem, osaogoncalo.com.br)

                    A família que o procurara contara uma história muito comum na cidade desde o século XIX: alugara um terreno em fazenda, plantara-o com um belo laranjal e, quando vieram os frutos, o fazendeiro rompeu o contrato e alugou a mesma área para outra pessoa, a valor bem alto, pagando àquela família uma indenização de 5 mil réis por suas benfeitorias, valor todo usado para o pagamento de dívidas, inclusive com o dono das terras. Esta era uma prática tão comum (apesar de altamente injusta) que já em 1827 lavradores das freguesias de São João Batista (futura Niterói) e de São Gonçalo requereram à Câmara de Deputados da Assembleia Legislativa Geral do Império, na corte, que os arrendamentos fossem reduzidos a aforamentos perpétuos, para evitar que os proprietários fizessem nova locação com avaliação lesiva das benfeitorias. Na sessão de cinco de julho daquele mesmo ano, os legisladores indeferiram o pedido com base em parecer da Comissão de Legislação, firmado pelos deputados Antônio de Souza Teles, José Gregório de Miranda Ribeiro, José da Cruz Ferreira, Antônio Augusto da Silva e José Carlos Pereira Torres, alegando tratar-se de ataque ao direito de propriedade. Mais de cem anos depois, o panorama era o mesmo.
                    Era preciso encontrar uma solução e ela seria muito custosa, sabia-o Aníbal Nora, pois o terreno haveria de ser suficientemente grande para receber a igreja e também um asilo. Com fé, ele foi para o centro da cidade e eis que encontra Manoel Pita, também evangélico, mas da Igreja Congregacional, que lhe segredou: estava à venda, sem ser anunciado, um terreno na Rua Francisco Portela, 2767, ao frente ao que eram as ruínas do armazém de José Alves de Azevedo, o “Zé Garoto”, e que foi o antigo Fórum de São Gonçalo e hoje (2017) é sede da Câmara Municipal. Era ótimo, mas caro, pelo tamanho e pela localização: 10 contos de réis. Nora recorreu a um cunhado, que prontamente lhe emprestou 8 contos de réis e passou a fazer coleta com outros companheiros, até juntar a importância e ir ao proprietário do imóvel, advogado João Francisco da Matta (1893, São Gonçalo/1960, Niterói), que, embora católico, ficou entusiasmado com a proposta social e vendeu a área por 9 contos de réis, destinando um conto de réis para as obras que viriam a seguir. Com trabalho voluntário e compras de material a prazo no comércio local, Nora conseguiu, já em 10 de novembro de 1941, inaugurar o prédio principal do Lar Samaritano (que fora juridicamente fundado em março anterior), tendo como orador principal da solenidade o reverendo Galdino Moreira. Assim, ele abrigou imediatamente a família de agricultores que o procurara um ano antes e começou a acolher idosos.

(imagem, slideshare.net)

                    Mesmo aposentado, em 1948, das funções de reverendo, Aníbal Nora continuou olhando pelo Lar Samaritano, na condição de presidente honorário, até seu falecimento (sem deixar descendentes), em 15 de janeiro de 1971. E, nesses 23 anos, continuou a evangelizar; declarou, em 1951, a senhora Alzira Vargas do Amaral Peixoto (primeira dama do antigo RJ) presidente de honra da instituição; publicou vários livros (entre eles, “Explicação Popular do Apocalipse”, na década de 1950, pela editora O Puritano, e “Verdades Luminosas”, em 1962, pela editora Princeps); defendeu, em 1943, a utilização das áreas saneadas pelo governo federal na Baixada Fluminense por agricultura permanente, com o plantio de eucalipto, coco da Bahia, mamona, soja e maniçoba; e participou do Movimento Popular de Alfabetização lançado pelo governador Roberto Silveira, instalando uma escola para adultos, que recebeu seu nome, em Pachecos, inaugurada pelo próprio chefe do executivo estadual em cinco de abril de 1960. Aníbal Nora é patrono de rua no bairro do Coelho e a direção geral do Lar Samaritano neste ano de 2014 é ocupada pelo reverendo Genésio Ferreira, responsável pelo atendimento a 65 internos (24 masculinos e 41 femininos) que ali se encontram.


Jorge Cesar Pereira Nunes é Bacharel em Direito, Jornalista e Pesquisador da História de São Gonçalo.
É, também, autor das seguintes obras:
A criação de municípios no Estado do Rio de Janeiro;
Chefes de Executivo e Vice-Prefeitos de São Gonçalo;
Dirigentes Gonçalenses - Perfis;
Crônicas Históricas Gonçalenses I, II e III.

Fontes: Anais da Câmara dos Deputados da Assembleia Geral Legislativa do Império, em 1827, página 584.
             Registro de casamento nº 208, do livro nº 15, páginas 72 verso e 73, do Cartório da 7ª Circunscrição da Cidade do Rio de Janeiro.
             As Ruas Contam Seus Nomes, de Emmanuel de Macedo Soares, página 540.
             Relato do reverendo Aníbal Nora, feito em 1965.
             O São Gonçalo, 09-11-1941, p. 2; e 12-01-1948, p. 1.
             A Noite, 25-05-1943, p. 9; e 05-10-1951, p. 11.
             Correio da Manhã, 06-04-1960, p. 4.

sábado, 2 de setembro de 2017

Emenda parlamentar: de Brasília à São Gonçalo, um caminho nebuloso

(Texto de Matheus Guimarães)

1.180 km separam nossa cidade de Brasília, e quem dera que fosse somente essa a distância entre os políticos de lá e de cá. O caminho da emenda parlamentar é cercado de dúvidas e falta de transparência.
O orçamento federal é elaborado pelo poder Executivo, sendo a participação de deputados e senadores restrita à alteração do projeto encaminhado pelo Executivo, podendo ser aprovado ou não. Umas dessas alterações é a chamada emenda parlamentar. As emendas parlamentares são solicitações realizadas pelos membros do Legislativo para inclusão de verbas específicas, como pavimentação de ruas ou construção de uma unidade de saúde.
O caminho parece simples, mas na verdade exige capacidade de articulação política e muita paciência daqueles que necessitam dos recursos. Isso porque a liberação dos recursos depende de aprovação do Executivo, que normalmente as concede em contrapartidas políticas, como aprovação de matérias do governo. Tentando esvaziar o poder do Executivo, em 2015 foi aprovada uma Emenda Constitucional obrigando o empenho destas emendas com duas regras: até 1,2% das receitas da União e metade das emendas sendo destinadas à área da saúde.
No orçamento federal de 2017, discutido e aprovado no ano passado, foram destinados cerca de R$ 9 bi em emendas parlamentares individuais, ficando cerca de R$ 15,3 mi para cada deputado e senador, podendo ser divididos em até 25 emendas. Este valor pode ser encaminhado para quaisquer entidades públicas ou privadas, de maneira específica como a construção de uma escola em determinado município.
FASE 1 — Para ter sua emenda aprovada, o parlamentar precisa apresentar detalhes e justificativas do uso daquele recurso em uma comissão interna do Congresso Nacional. A comissão é responsável por julgar se as emendas daquele parlamentar estão dentro dos limites constitucionais. Em caso de uma emenda negada, o parlamentar não pode apresentar uma emenda substituindo a anterior. Começa aqui parte do problema. Muitas emendas são apresentadas fora do prazo e contendo inconsistências, o que acaba inviabilizando sua aprovação. No caso de parecer favorável, a emenda fica sob status de APROVADA.
FASE 2 — Com a aprovação da Emenda Constitucional 86 em 2015, as emendas passaram a ser impositivas, ou seja, após aprovadas o Governo Federal tem de empenhá-las no ano fiscal programado. O objetivo foi acabar com a barganha entre os poderes, onde o Executivo liberava as emendas em troca de apoio no Legislativo. Após autorizada na comissão interna, é realizada uma tomada de preços para saber de fato, o valor necessário para a realização daquele investimento. Feita a tomada de preços, a emenda adquire status de EMPENHADA, dentro do limite do valor autorizado, estando liberada para ser aceita pelo proponente.
Agora, a estratégia passou a ser liberar as emendas em datas próximas as eleições para os aliados e somente depois do pleito para os opositores. Bem republicano, não é mesmo? Você deve estar pensando: “pelo menos agora as emendas tem de chegar no meu município”. Nunca é tão simples quanto parece. Após empenhadas, ou seja, autorizadas pelo Executivo, as emendas entram em um cenário de Silent Hill, onde poucos sabem o que de fato acontece com elas.
FASE 3 — Após o empenho das emendas, elas ficam disponíveis para execução, com isso, o proponente, que é quem irá receber, é notificado sobre a disponibilidade da emenda. A partir daqui, a capacidade técnica dos gestores é fundamental, isso porque, antes de ser executada, é necessário apresentar toda a comprovação técnica para a realização de obras, como laudos, licenças e planos de trabalho. Outro ponto importante está na responsabilidade financeira das emendas. Por exemplo, no caso de uma emenda para a construção de uma unidade de saúde, o município precisa comprovar que possui recursos para equipar e manter aquela unidade. Bem lógico né? Com todo o parecer técnico apresentado, as emendas são EXECUTADAS, que é o início das obras.
FASE 4 — Após a execução da obra, a emenda pode ser PAGA pelo Governo Federal ao município, que então pode pagar à construtora em caso de terceirização, ou repor o caixa em caso de obra feita pela Prefeitura. Deu pra entender?
Contudo há uma série de dificuldades para a execução e pagamento das emendas. Já deu pra ver que o Governo Federal só paga a emenda depois de executada, ou seja, o município para iniciar uma obra, precisa alocar recursos próprios, o que muita das vezes não acontece devido a penúria em que se encontram os orçamentos municipais. Outra montanha no meio do caminho são as prestações de contas. Muita das vezes o pagamento das emendas é feito de maneira parcelada. Digamos que uma emenda de R$ 300 mil seja paga em três parcelas iguais. O Governo Federal só libera a segunda parcela depois de saber onde foi gasta a primeira. A incapacidade técnica e os esquemas de corrupção muita das vezes impedem uma prestação de contas regular, o que inviabiliza a chegada de mais recursos.
Há também um pano de fundo político nisso tudo: porque Nanci, por exemplo, aceitaria uma emenda do deputado Dejorge, seu eventual adversário em 2020 e que mantém uma forte oposição na Câmara de Vereadores? Nanci estaria justamente favorecendo seu principal adversário, que poderia fazer o discurso que encaminhou n milhões em emendas para a cidade. Indo além, os eventuais candidatos apoiados pelo prefeito, poderão dizer aos cinco distritos que o deputado não trouxe uma emenda sequer para a cidade. Complicado né?
Toda essa nebulosidade em torno das emendas podem ser comprovadas com os seguintes dados da plataforma SIGA Brasil, do Senado Federal: para o Orçamento de 2017, fora autorizado pela comissão, R$ 9,1 bi. Até a última atualização da plataforma, 31 de julho, 45,5% das emendas haviam sido empenhadas, cerca de R$ 4,1 bi. Contudo, somente cerca de R$ 17 mi haviam sido de fato executadas, ou seja, nem 1% das emendas empenhadas.
Mas e o governo Nanci? Está participando dessa festa orçamentária? Ainda não, mas os convites já começam a chegar. Três para serem exatos: R$ 3,9 mi de Altineu CortesR$ 535 mil de Marco Antonio Cabral e R$ 1mi de Pedro Paulo, estão empenhados, mas nenhuma foi executada até o momento. Cabe lembrar que o Governo Federal tem até dezembro para empenhar, ou seja, liberar as demais emendas autorizadas pela comissão.
Em 2016, Neilton Mulim foi bem eclético no recebimento de emendas, atingindo um total de R$ 3,6 mi de sete parlamentares: R$ 387 mil de Alexandre ValleR$ 599 mil de Cabo DacioloR$ 474 mil de Celso JacobR$ 989 mil de Chico D’AngeloR$ 300 mil de Jean WyllisR$ 400 mil de Marcos Soares e R$ 451 mil de Soraya Santos. Quase tudo destinado à saúde, com exceção da emenda do deputado Marcos Soares destinada à Sec. de Desenvolvimento Social.
Nossos vizinhos Niterói Itaboraíreceberam, respectivamente, R$ 7,1 mi e R$ 9,0 mi em 2016. Já este ano, foram empenhados R$ 500 mil em ambos os municípios, também não executadas ainda.
Bom, já deu pra perceber que o caminho das tão sonhadas emendas parlamentares não é nada fácil não é mesmo? É bem possível que você, leitor, encontre informações diferentes destas que eu apresentei, afinal, este é um daqueles assuntos que ninguém sabe muito bem como funciona e quem sabe não conta de jeito nenhum.

"Matheus Guimarães é formado em Produção Cultural e estudante de licenciatura. Escreve sobre política, cultura, cidade e o que mais aparecer"

Ep.6 - Nosso - Rosemary Fructuoso

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

São Gonçalo como força política regional

(Texto de Matheus Guimarães)
Nas eleições de 2014, se São Gonçalo fosse um partido, teria eleito apenas dois deputados estaduais, Nivaldo Mulim, irmão do então prefeito Neilton e José Luiz Nanci, atual prefeito da cidade. Naquele momento, nenhum deputado federal havia sido eleito, pois Dejorge Patrício assumiria somente em 2017, já que era o primeiro suplente de seu partido. Em contrapartida, a bancada niteroiense em 2014 foi de três deputados estaduais (Waldeck, Comte e Flavio Serafini) e dois deputados federais (Chico D’Angelo e Sergio Zveiter). Vale lembrar que nossos vizinhos possuem cerca de metade do total de nossos eleitores, 680 mil gonçalenses contra 370 mil niteroienses em 2016.
Mas porque isso acontece? A partir daqui, o texto torna-se meramente intuitivo, baseado na vivência do cotidiano. Dentre os dez mais votados para deputado estadual em Niterói, conseguimos encontrar quatro “forasteiros” — e coloco a palavra entre aspas porque não há problema algum em escolher um candidato cuja base eleitoral não seja a mesma que a sua, porém, tendo ciência que isso diminui o poder político do seu município junto a outras esferas — , mesmo cenário das urnas gonçalenses. No pleito para deputado federal, nossos mais votados tiveram a presença de três “forasteiros”, enquanto Niterói foi inversamente proporcional, com sete moradores do “lado de lá da poça”. Pois então, porque um cenário tão desfavorável para São Gonçalo permanece?
Já deu pra perceber que o “problema” não está no eleitor, não é? Não somos nós, gonçalenses, que estamos elegendo os “forasteiros”, mas os candidatos gonçalenses é que não estão se elegendo. Talvez, a resposta esteja justamente fora da nossa cidade. Nossos atores políticos tem extrema dificuldades em construir pontes com grupos de outros municípios. Vejamos um exemplo: Waldeck foi o candidato mais votado em Niterói, porém o peso dos eleitores niteroienses em sua votação foi de “apenas” 58%. O vice prefeito Comte, foi reeleito em 2014 com 38% dos seus votos vindo das urnas niteroienses.
No caso das figuras gonçalenses os números se invertem: a média da proporção dos votos gonçalenses chega a 70%. Nanci (reeleito) e Graça (não reeleita) por exemplo, superaram a casa de 80% de dependência dos seus votos de gonçalenses. A proporção mais baixa foi a de Rafael do Gordo, que chegou a 58% graças a uma dobrada com Pedro Paulo, que impulsionou seu nome também para a capital.
No cenário de deputado federal, o índice de dependência é ainda maior. Enquanto a dependência de Chico D’Angelo e Sergio Zveiter não chegou a 40%, em nossos candidatos o índice mais uma vez ultrapassou os 80%.
É claro que o eleitorado gonçalense tem número suficiente para eleger dois estaduais e dois federais de forma autônoma, mas isso depende muito de uma articulação dos nossos grupos políticos, que sabemos, não são tão fáceis de compreender a importância disto. São Gonçalo é — ou pelo menos deveria ser — a cidade mais importante do Leste Fluminense, região que compreende além das duas cidades citadas, Itaboraí, Maricá, Rio Bonito e Tanguá. É inadmissível, por exemplo, que nenhum gonçalense figure entre os dez mais votados de Itaboraí em ambas as listas.
Há muito tempo que a sociedade gonçalense sofre pela falta de qualidade de seus grupos políticos. Precisamos de novos grupos, com novos atores, capazes de se articularem partidariamente, com o objetivo de serem candidaturas competitivas, e também regionalmente, trazendo para si os diversos grupos políticos do Leste, com diálogo e tendo como ponto central o desenvolvimento de nossa região.
Com esse texto, faço uma chamada aos atuais pré-candidatos: ampliem seus horizontes! Tornem-se referências políticas regionais e visitem outros territórios. Pelo motivo que for, os gonçalenses já estão com vocês. Vão, e desbravem novas terras e desenvolvam sua capacidade de articulação. SER O CANDIDATO DO PREFEITO NÃO TE FARÁ UM BOM CANDIDATO, MUITO MENOS CRITICÁ-LO!
E terminando, apelo aos eleitores gonçalenses: votem em nossos candidatos. Estão longe de serem bons, eu sei, quiçá do ideal, mas são reflexo da nossa realidade e podem muito bem servirem de ponte para uma nova geração de políticos em nossa cidade.
Matheus Guimarães é formado em Produção Cultural. Licenciando em História, está se preparando para ser um futuro professor.